Cada um tem Aquiles que merece

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Era uma de minhas aulas temáticas, e nesse dia filosofávamos sobre o esporte. Um dos pontos da discussão dizia respeito a como a modernidade se tornou individualista, mas procura resgatar um nostálgico e talvez artificial sentimento de grupo em ocasiões como as olimpíadas.

Relembramos algumas polêmicas de rede social recentes, como o caso da Rafaela, medalhista de ouro no Judô, e um  post que defendia que a medalha conquistada era dela, só dela, e não do Brasil, uma vez que ela ralou por conta própria e nunca recebeu apoio dos brasileiros. Foi quando me embrenhei em comparar a perspectiva coletivista dos Gregos na Antiguidade à nossa mentalidade atual.

Num processo genealógico, analisando a organização social dos gregos, e divagando sobre o sentido das suas olimpíadas, de alguma forma que não lembro bem, fui parar na  Ilíada, de Homero. Aquiles, seu mais famoso personagem, é um guerreiro apadrinhado pelos deuses. Possui habilidades de combate extraordinárias, inigualáveis, sobre-humanas. No enredo que se desenrola nessa epopeia, exércitos com seus respectivos comandantes, de diversas cidades gregas, se mobilizam em uma guerra contra Troia. A motivação inicial também é bem conhecida. O “rapto” de Helena de Troia. Mas instaurado o problema, a motivação inicial se torna menor, dando lugar a um embate entre dois povos, e não mais apenas entre amantes e dores de corno.

No processo de mobilização dos seus guerreiros, os Gregos não poderiam deixar de lembrar do melhor dos seus, Aquiles. Ele é então convocado, mas se mostra indiferente à causa da Guerra e aos interesses comuns dos Gregos. Assim, destoando da consciência coletivista característica da época, como um legítimo pós-moderno da sociedade líquida do século XXI, com ar de desprezo e sem qualquer pudor, Aquiles recusa o convite.

Os Gregos ficam então decepcionados, se sentindo impotentes. Seja como for, Aquiles era um combatente que todos gostariam de ter em seu exército. Mesmo que sua motivação fosse puramente individual e alheia à causa geral da sua comunidade, todos se sentiriam privilegiados por tê-lo ao seu lado, e passariam em seguida a contar como sendo de seu grupo os feitos que ele realizaria. E foi exatamente o que aconteceu. Aquiles surpreende  a todos se apresentando para o combate. Ele participa da guerra contra Troia, mas só o faz quando motivos particulares lhe instigam o espírito de vingança. Foi e fez tudo o que fez, mas se mantendo o tempo todo indiferente à causa do grupo.

Seu impulso inicial foi uma afronta pessoal.  E se tinha sede de glória, era para sua própria necessidade de entrar para a posteridade. Estava ali atuando com um grupo, no meio de uma guerra entre duas nações, mas considerava o seu acerto de contas mais importante do que qualquer outra causa. O que tinha de extraordinário, tinha também de genioso e de individualista.

Foi quando, lembrando das últimas polêmicas envolvendo o futebol nestas olimpíadas,  me veio um estalo e comentei: “Gente!  Neymar é o nosso Aquiles”. (Toca o sinal) “Até a semana que vem”.

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