A revolução dos bichos e a sociedade de classes – Artigo

A LUTA DE CLASSES E A DITADURA DO PROLETARIADO EM A REVOLUÇÃO DOS BICHOS: UMA CRÍTICA AO SOCIALISMO
Francisco Alison Silva Aquino-Fafidam/Uece

1. INTRODUÇÃO

O livro A Revolução dos Bichos, de autoria de Eric Arthur Blair (mais conhecido pelo pseudônimo de George Orwell, 1903-1950), apresenta uma dura crítica política ao fim levado pela Revolução Russa de 1917. A marca deixada por esta obra não é devido uma linguagem ou narrativa inovadora, mas exatamente por sua crítica não só à revolução Russa, mas a todas as revoluções que terminam com uma nova elite tomando o poder. Sua narrativa, simples e concisa, se desenvolve por meio das falas dos animais, sendo estes bichos, metáforas políticas.

Pretendemos, portanto, fazer uma análise dos conceitos propostos por Marx e Engels (1998) de Proletariado e burguesia, assim como a chamada ditadura do proletariado, representada pelas personagens, os bichos e os homens. Veremos que, no caso da narrativa A revolução dos bichos, a tentativa de tomada de poder, tendo em vista defender o princípio do igualitarismo, não traz bons resultados tentativa de tomada de poder, tendo em vista defender o princípio do igualitarismo na verdade não traz bons resultados. As personagens, principalmente os porcos, demonstram que, na sociedade, dentre os “iguais”, alguns são mais iguais que outros. Isto significa que mesmo aqueles que defendem o princípio do “Comum a todos” ou igualitarismo, no fim, se voltam contra esse princípio, movidos pela ganância.

A partir da leitura da narrativa de Orwell, entendemos que os princípios propostos pelo socialismo não só não funcionam na prática, bem como este sistema político pode ser facilmente corrompido por seus atores.

2. A BURGUESIA REPRESENTADA PELOS HOMENS

Sr. Jones e outros homens presentes na narrativa representam a burguesia. O homem é descrito por Major, porco idealista da revolução dos bichos, como um inimigo e fonte de toda miséria, problemas sociais e econômicos. Assim ele o descreve: “O homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o homem, e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá” (ORWELL, 2000, p.10). Ele ainda acrescenta em seu discurso diante dos outros bichos que “O homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o suficiente para alcançar uma lebre. Mesmo assim, é o Senhor de todos os animais” (ORWELL, 2000, p.10).

Em outras palavras, o burguês, o proprietário, é visto como fonte de todos os problemas. Se não tivéssemos o homem, segundo o porco Major, não haveria sobrecarga de trabalho para o proletário e, além disso, este não seria explorado e receberia o produto do seu trabalho de forma igualitária em relação aos demais.

O líder da revolução parece ser tão convicto a respeito dos perigos que o homem pode trazer que ele não se cansa de afirmar que este é de fato um grande inimigo:

Pouco mais tenho a dizer. Repito apenas: lembrai-vos sempre do vosso dever de inimizade para com o homem e todos os seus desígnios. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo, qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo. Lembrai-vos também de que na luta contra o homem não devemos assemelhar-nos a ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai seus vícios. (ORWELL, 2000, p.14)

Os bichos não devem nem mesmo imitar os hábitos dos homens, pois “todos os hábitos do homem são maus” (ORWELL, 2000, p.14). Da mesma forma, “Jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Todos os animais são iguais” (ORWELL, 2000, p.14). Isso significa que aqueles que agora são dominados não devem agir como os dominantes fazem, pois todos são iguais. Mas, perguntamos: será que é isso que de fato ocorre no decorrer da narrativa? O “comum a todos” de fato funciona?

3. O PROLETARIADO REPRESENTADO PELOS ANIMAIS

Logo no início da narrativa vemos uma fala do personagem Major que revela a problemática da luta de classes:

Nascemos, recebemos o mínimo salário de alimento necessário para continuar respirando e os que podem trabalhar são forçados a fazê-lo até a última parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba, trucidam-nos com hedionda crueldade (ORWELL, 2000, p.9).

O proletariado, aqui representado pelos animais, são os trabalhadores, aqueles que, de acordo com Adolphe Granier de Cassagnac (1838) (apud Linden, s/d, p.58) formava “o nível mais baixo, o estrato mais profundo da sociedade”. Assim, os porcos, cavalos, cachorros e outros animais presentes na narrativa, isto é, a classe dominada, compõem o proletariado.

Ao continuar a leitura, começamos a compreender melhor quais são os objetivos dos animais da Granja do Solar. Eles não podem aceitar mais o domínio de alguém sobre eles, uma vez que Sr. Jones se apropria de grande parte da renda obtida pelo trabalho exercido por eles, retendo a maior parte para si e concedendo o mínimo possível para os bichos. É exatamente essa a indignação de Major: “Porque quase todo o produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos.” (ORWELL, 2000, p.10). E ele prossegue: “Põe-nos a trabalhar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante” (ORWELL, 2000, p.11)

Aqui percebemos claramente o conceito de “mais-valia” proposto por Marx e Engels (1998). O princípio de que o empregador (Sr. Jones) paga ao trabalhador um montante muito menor do que o devido. Esta problemática se torna ainda mais clara à medida que lemos o discurso de Major:

As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido este ano? E que aconteceu a esse leite, que deveria estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram este ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice? Foram vendidos com a idade de um ano — nunca você tornará a vê-los Como paga pelos seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia? (ORWELL, 2000, p.11)

Desta forma, Major não admite mais o fato de que a maior parte da renda proveniente do trabalho produzido pelos bichos da Granja do Solar (proletários) seja destinada ao Sr. Jones, proprietário da granja. Os bichos querem agora que toda produção seja dividida igualmente entre eles. Uma revolução está prestes a acontecer, Sr. Jones será destronado e a ditadura do proletariado instaurada. Porém, veremos se ela de fato é a solução para os problemas enfrentados pelos bichos.

4. A DITADURA DO PROLETARIADO INSTAURADA PELOS BICHOS

Insatisfeitos com a situação na qual se encontravam, como já descrevemos, os bichos dão início a uma revolução. Sr. Jones agora não mais podia se apropriar dos bens produzidos pelos bichos: “[…] os bichos haviam posto Jones e os peões para fora da granja, fechando atrás deles a porteira das cinco barras. E assim, antes de perceberem o que sucedera, a revolução estava feita. Jones fora expulso e a Granja do Solar era deles” (ORWELL, 2000, p.23)

É exatamente desta forma que, segundo Marx e Engels, que as coisas devem acontecer:

Os proletários não podem apoderar-se das forças produtivas sociais senão abolindo o modo de apropriação a elas correspondente e, […] sua missão é destruir todas as garantias e seguranças da propriedade privada até aqui existentes. […] O proletariado, a camada mais baixa da sociedade atual, não pode erguer-se, pôr-se de pé, sem fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial. […] É natural que o proletariado de cada país deva, antes de tudo, liquidar a sua própria burguesia. (1998, p. 150)

O desenvolvimento da consciência da classe dominada, os bichos, aliada à exploração do Sr, Jones davam a eles, aparentemente, a condição de ser a única classe social com a capacidade de reverter a situação. Para isso, eles deveriam tomar o poder através de uma revolução e implantar um regime do proletariado a fim de minimizar as diferenças sociais e proporcionar o bem-estar coletivo. Por fim, é instaurada então a Ditadura do Proletariado, ou seja, dos bichos.

Vale ressaltar que toda a narrativa é uma crítica à tentativa bem sucedida de implantação da Ditadura do Proletariado em 1917 com a Revolução Russa. Naquela ocasião, os trabalhadores tomaram o poder do tradicional regime czarista e instalaram um governo socialista através do líder Lênin. A formação da União Soviética estabeleceu um regime socialista que teve Stalin como seu líder até o início da década de 1950, governando com a rigidez de uma Ditadura do Proletariado. Porém, ela funcionou? Vejamos o que aconteceu depois que os bichos tomaram o poder.

Os bichos se alegraram porque “tudo quanto enxergavam era deles!” (ORWELL, 2000, p.24). Não havia mais nenhuma “Granja do Solar”, mas “Granja dos Bichos”. Os princípios do “Animalismo”, agora bem definidos, “constituiriam a lei inalterável pela qual a Granja dos Bichos deveria reger sua vida a partir daquele instante, para sempre” (ORWELL, 2000, p.27).

Agora os Bichos podiam produzir em menos tempo do que Jones e seus homens. Porém, algo diferente chama a atenção. O leite tirado das vacas desaparece (mistério que logo depois é desvendado), é misturado à ração dos porcos sob o pretexto de não falhar na missão. Além disso,

os bichos tinham como certo que as frutas deveriam ser distribuídas equitativamente; certo dia, porém, chegou a ordem para que todas as frutas caídas fossem recolhidas e levadas ao depósito das ferramentas, para consumo dos porcos (ORWELL, 2000, p.38).

Estes passam então a dominar o território com sutileza, tendo além do leite, as maçãs reservadas para si, o que os outros animais aceitaram sem questionar, pois afinal, nenhum deles queria Sr. Jones de volta à granja.

Tudo parecia perfeito. A comida agora era realmente deles, “produzida por eles e para eles, em vez de distribuída em pequenas quantidades por um dono cheio de má vontade” (ORWELL, 2000, p.31). Eram movidos pela ideia de igualdade, e era isso que de fato importava.

Problemas começam a aparecer quando começa uma disputa entre Bola de Neve e Napoleão, os dois porcos que comandam o levante dos animais contra Sr. Jones, a respeito da construção de um moinho de vento. Em uma das reuniões, Napoleão dá um guincho estridente e nove cães saltam sobre Bola de Neve, expulsando-o da granja. Ele então toma o comando e inicia-se uma ditadura, agora os bichos não têm mais reuniões, nem votações ou debates, apenas ouvem as ordens e as cumprem sem reclamar, o não cumprimento das ordens de Napoleão ou a rebeldia passam a ser duramente castigados, até mesmo com a morte aos considerados traidores.

Napoleão, sagazmente, afirma que não é por motivos egoístas que eles, os porcos, faziam isso, mas pelo bem de todos os bichos, pois a liderança é um fardo. No entanto, o que percebemos é que todas as regras e mandamentos estabelecidos após a revolução pelos bichos acabaram sendo quebrados e transformados em prol do bem estar dos porcos.

Instala-se então um sistema terrível onde os animais já não têm mais direitos, apenas devem trabalhar, agora muito mais que antes, estão escravizados e nem se dão conta disto, pois já não lembram mais dos tempos de outrora. A miséria toma conta da granja, os sonhos já estão esquecidos, os porcos agora mandam e os outros animais apenas obedecem sem coragem de contra-argumentar.

Em pouco tempo, os porcos começam a agir como os seres humanos: bebem, fumam, dormem em camas, vestem roupas e passam a andar sobre as patas traseiras, tendo chicotes nas patas dianteiras para controlar e manter a ordem entre os outros animais. Não era mais possível distinguir quem era porco e quem era homem.

A conclusão não poderia ser diferente: “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros” (ORWELL, 2000, p.135). Em outras palavras, a busca pelo “comum a todos” é uma utopia. Como podemos constatar, a partir de então, os porcos passam a comandar com suas regalias, enquanto os outros animais estão na miséria. Não é mais uma questão de distribuição da riqueza, mas de distribuição da pobreza.

De acordo com Lawrence W. Reed (2014), as pessoas que são obcecadas pela igualdade econômica tendem a fazer coisas estranhas. Um exemplo disso é que elas se tornam invejosas, passando a cobiçar aquilo que é dos outros. Para isso, elas gastam mais tempo tentando derrubar alguém bem sucedido em vez de se esforçar para se aprimorar e subir na vida.

Não é basicamente isso o que acontece com os porcos? Onde está a igualdade proposta pelos próprios bichos desde o início? Não são de fato uns mais iguais que outros? O que aconteceu foi que “parecia como se a Granja se houvesse tornado rica sem que nenhum animal tivesse enriquecido — exceto, é claro, os porcos e os cachorros” (ORWELL, 2000, p.130). No final, aqueles que tanto pregam o igualitarismo, percebem que isto não acontece, pois o homem é ambicioso e sempre cobiçará o que não é seu. Basta olhar o episódio em que os porcos se apropriam das maças e do leite, como já mencionado.

Lawrence W. Reed (2014) citando Thomas Sowell e Milton Friedman afirma que as tentativas de se equalizar os resultados econômicos produzem na verdade desigualdades maiores e mais perigosas. Além disso, uma sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade terminará sem as duas. Desta forma, usar a força com o objetivo de alcançar a igualdade terminará nas mãos de pessoas que irão utilizá-la com o intuito de promover seus próprios interesses.

A posição que os porcos passaram a ocupar ilustra tal prerrogativa. Eles pareciam inocentes, santos, mas a verdade é que havia uma semelhança tão grande com os homens que não era possível fazer qualquer distinção entre eles.

Por fim, cabe aqui a contribuição de Russel Kirk (2014, p. 329) que afirma o seguinte:

Não é necessário esforço algum para se tornar um proletário: é preciso apenas que a pessoa se submeta às correntes desumanizantes e desculturantes do momento e adore os ídolos da multidão. […] Alguns espíritos malignos, em nome da igualdade, gostariam de ver-nos a todos proletários: a doutrina da miséria igual. O impulso conservador, au contraire, é o de resgatar tantos homens e tantas mulheres quanto possível de um destino tão insignificante na vida, sem objetivo e sem alegria, que é a condição proletária.

Este foi o fim alcançado pelos bichos. Em nome do igualitarismo, eles acabaram se encontrando numa situação em que, não a riqueza era distribuída de acordo com o trabalho produzido por eles, mas a pobreza era distribuída igualmente entre os menos iguais, enquanto os porcos ficavam com a maior parte do que era produzido pelos outros animais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo, buscamos tratar a respeito da temática política presente na obra A revolução dos Bichos, do escritor George Orwell. Podemos perceber que a narrativa se desenvolve através de uma oposição entre classes, os menos favorecidos, isto é, os bichos, representando o proletariado, e os mais favorecidos, ou seja, os homens, representando a burguesia. Constatamos que, os princípios propostos pelos bichos foram quebrados no final, uma vez que os porcos passaram a ocupar praticamente a mesma posição que Sr. Jones ocupava.

Entendemos que o princípio de igualitarismo não funciona, uma vez que, como pudemos notar nos porcos, movidos pela ganância, eles passaram a querer mais do que lhes era devido. Os porcos são mais iguais que outros e não há mais como distingui-los dos seres humanos.

Não é apenas uma questão pragmática com a qual temos lidado aqui, mas também moral. Não é apenas a respeito de se o Socialismo funciona ou não, mas se ele é certo ou errado. O fato de os porcos, por exemplo, motivados por seus interesses, cometerem cobiça e inveja já nos dá a resposta.

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