A Experiência de Platão em Siracusa

A Experiência de Platão em Siracusa

            por Alexsandro M. Medeiros

            Existe uma ideia mais ou menos falsa de que o filósofo é alguém que vive contemplando as ideias ou de que a própria filosofia é apenas um saber teórico e contemplativo. O próprio filósofo alemão Karl Marx fez uma crítica a essa postura filosófica quando disse em sua tese contra Feuerbach que os filósofos até então tinham apenas interpretado o mundo, mas o que importava era transformá-lo.

Pois bem, Platão é um desses filósofos que não apenas contrariam a tese marxista mas que também revela que a filosofia tem também um caráter eminentemente prático, ou, como afirma Jaeger (2001): o saber em Platão não é mera contemplação desligada da vida prática, é tekhne[1]artephronesis[2], é reflexão sobre o caminho a seguir.

O que nos permite afirmar que a filosofia em Platão tem um caráter ao mesmo teórico e prático, contemplativo e de ação no mundo? Suas experiências de ação na política na cidade de Siracusa, que nós sabemos através da Carta VII e que discute, entre outras coisas, a relação entre o filósofo e o poder.

Sobre sua experiência naquela cidade, a melhor fonte que se tem é a Carta VII, na qual relata as três viagens feitas ao reino dos Dionísios, realizadas na esperança de transformar os governantes tiranos, primeiro Dionísio o velho e depois Dionísio o jovem, em filósofos-reis. Na carta em questão, o filósofo explana acerca do comportamento e dos atos políticos dos dois Dionísios, assim como reflete a respeito de seu amigo Dión, por intermédio de quem conheceu os tiranos e ainda sobre seus próprios atos, numa espécie de auto-exame (MENESCAL, 2009, p. 22).

A relação que se estabelece entre teoria e prática em Platão é evidente, pois para Platão o saber deve dar legitimidade e fundamento ao poder. Em outras palavras, o saber orienta não apenas o agir individual, mas o agir em sociedade. E o homem portador deste saber deve dar à coletividade leis conforme a reta razão pois ele alcançou, por meio de um longo processo de formação, o conhecimento e a essência do Bem e da Justiça (veja a este respeito a interpretação política de A Alegoria da Caverna de Platão). Esse longo caminho implica todo um processo de formação pedagógica que inclui o conhecimento não apenas filosófico, mas também o conhecimento científico existente à época de Platão, desde a Astronomia até a Música, e pelo menos 10 anos de matemática, 05 anos de dialética, seguidos de 15 anos ativos na vida pública, preparatórios para a chefia da polis, conforme Platão descreve em sua obra A República (livros VI e VII).

O que justifica a ida de Platão à Siracusa, mesmo ele sabendo ser esta cidade governada por um tirano? Jaeger talvez nos dê uma resposta para esta pergunta, se nós considerarmos como ele, que no século IV a.C., nos deparamos repetidas vezes com o problema de saber como converter a tirania numa constituição mais suave ou mais justa. Não só Platão acalentou o desejo de “converter” a tirania em uma forma de governo mais justa, como também encontramos em Xenofonte[3], um diálogo a este respeito, intitulado Hieron, no qual o poeta Simônides interpela Hieron acerca de seu estilo de vida e de sua suposta felicidade, abrindo a possibilidade de o tirano vir a exercer o poder com benignidade.

Quando Platão aceitou o desafio de ir à Siracusa, proposto por Díon, sobrinho do tirano Dionísio, talvez ele imaginasse uma oportunidade de promover sua reeducação. Platão já havia tratado na sua obra A República da tirania como uma forma degenerada de governo: um governo de um só onde prevalece os interesses pessoais acima dos interesses da coletividade, embora ele não esclareça sobre a possibilidade de converter essa forma degenerada em uma forma justa: o oposto da tirania seria a monarquia (o governo de um só visando os interesses da coletividade). Mas tanto na República (PLATÃO, 1993, Livro V, 473d) quanto na Carta VII (PLATÃO, 1980, 326a) Platão levanta a possibilidade de uma cidade ser governada pelos filósofos, chegando mesmo a afirmar que enquanto os filósofos não se tornarem reis, ou os reis passarem a filosofar verdadeiramente, os males da cidade não cessarão.

Por três vezes Platão esteve em Siracusa com o intuito de estabelecer o governo de um filósofo-rei e, desse modo, transformar o rei da cidade em filósofo. Ao lado de Dión, seu amigo, esteve com Dionísio, o velho, que o vendeu como escravo. Depois esteve por duas vezes com Dionísio, o jovem, que não aproveitou as oportunidades de conhecimento oferecidas por Platão como deveria, valendo-se dos ensinamentos do ateniense para apenas satisfazer suas vaidades (MENESCAL, 2009, p. 13).

“A oportunidade de conviver com o tirano e de conhecer suas paixões, Platão a teve quando, por três vezes, tentou converter os Dionísios de Siracusa à filosofia. Foi vítima do arbítrio de ambos [Dionísio I e Dionísio I]” (BARROS, 2006, p. 34). Tal experiência pode ser conhecida pela leitura da Carta VII e compreendeu um período significativo de sua vida, dos quarenta (sua primeira viagem quando Siracusa era governada por Dionísio I, o velho) aos sessenta e oito anos (sua terceira e última viagem quando Siracusa era governada por Dionísio II). Foi nessa última viagem que Dionísio proibiu Platão de sair de Siracusa além de reter os bens de Díon devido a intrigas pessoais. Platão conseguiu sair de Siracusa apenas por intermédio de Arquitas de Tarento, filósofo e matemático conhecido, que diplomaticamente obteve sua libertação.

Na terceira viagem (361 a.C.) vem a cair a máscara do tirano. Platão, agora com sessenta e oito anos, percebe que Dionísio II brinca com a filosofia e articula um pérfido jogo com ele e com seu amigo Díon, pois não apenas proibiu-lhe a saída de Siracusa como negou-se a revogar quaisquer medidas que tomara contra Díon (BARROS, 2006, p. 34).

Platão acalentou desde cedo o desejo de participar dos negócios públicos: “Outrora na minha juventude experimentei o que tantos jovens experimentam. Tinha o projeto de, no dia em que pudesse dispor de mim próprio, imediatamente intervir na política”. Mas a sua desilusão com a morte de Sócrates (por razões políticas), quando Platão ainda iria completar 30 anos e que já havia afetado profundamente o seu espírito, aliado às experiências frustradas em Siracusa promoveram uma forte desilusão política no filósofo.

Suas experiências contra a força da tirania e, além disso, devemos considerar também a derrocada da democracia grega, foram marcas profundas que o fizeram se desiludir ainda mais com a política. “No fim de sua atuação como filósofo, fica evidente o amargor das decepções com as tentativas frustradas de implantação do projeto e uma escrita menos idealista e mais real das possibilidades políticas gregas” (MENESCAL, 2009, p. 14). Suas esperanças de participar da vida política foram cada vez mais sendo minadas, a despeito do mesmo considerar em sua Carta IX que:

(…) deves considerar que nenhum de nós nasceu para si mesmo; a pátria reclama uma boa porção de nossa vida; outra os parentes; outra, ainda, os amigos (…) Quando a pátria manda que nos ocupemos com seus assuntos, não ficaria feio fazermo-nos desentendidos? Desse modo, só facilitaríamos o acesso de gente desqualificada, que não se aproxima dos negócios públicos com boas intenções (358a)

Considerando os graves problemas da cidade de seu tempo e incurável sua legislação, eis que formula, então, o princípio fundamental de sua teoria política, sua sofocracia: o governo dos sábios (filósofos). Ao final de sua vida Platão é levado a fazer o elogio da verdadeira filosofia e proclamar que somente por meio dela é que se pode reconhecer as diferentes formas da justiça política ou individual e que não cessarão os males para o gênero humano antes de alcançar o poder a raça dos verdadeiros e autênticos filósofos ou de começarem seriamente a filosofar, por algum favor divino, os dirigentes das cidades (REPÚBLICA, 326ab e 473d).

Enquanto que na obra A República encontramos os aspectos fundamentais de um projeto político-pedagógico: a educação dos filósofos para que estes assumam o poder baseado no princípio fundamental da justiça, para que também a sociedade seja justa, na Carta VII vemos um “plano” para converter um tirano que já está no poder. A República associa o poder ao conhecimento moral, que na vida real andam separados (473d). Todavia, aos olhos de Platão, pareceu mais fácil mudar um único homem do que vários ou muitos (502ab). No caso, esperava-se que a conversão do tirano resultasse numa reforma do regime e, claro, do próprio estilo de vida do governante.

Por fim, devemos ressaltar que a experiência de Platão em Siracusa se deu não apenas com o objetivo de converter a tirania numa constituição mais suave ou mais justa, mas também pela necessidade de unir o discurso à ação, pois Platão não quer ser acusado de ser homem de palavras, apenas (Carta VII, 328c). Ademais, “com essa viagem, desobrigava-me diante de Zeus hospitaleiro e eximia de toda culpa o filósofo que em mim se teria manchado se, por timidez ou comodidade eu me tivesse desmoralizado” (Carta VII, 329b).

A oportunidade estava diante de seus olhos: “Dionísio I tinha poder, riqueza e um reino; gosto para a filosofia e educação do espírito; talvez conseguisse influenciá-lo e promover uma vida feliz e verdadeira em todo o país” (BARROS, 2006, p. 36).

Nunca houvera uma ocasião como aquela, de vir a concretizar-se nos mesmos homens a união da filosofia e do governo das cidades […] também confiava no caráter de Díon, naturalmente firme, por ele já ser de idade madura […] acabou de decidir-me a consideração de que era chegado o momento de tentar por em prática meus projetos de legislação e de governo. Bastava persuadir um único homem, para que tudo me saísse bem (Carta VII, 328 ac)

Mas, como vimos, seu projeto não teve êxito. E a ideia de uma sociedade governada por filósofos permanece ainda hoje apenas como uma utopia. A utopia de todos aqueles que ainda acreditam na possibilidade de viver em uma sociedade mais justa e menos desigual.

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