Elogio(?) ao Botafogo

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Desde que comecei a jogar fifa 10 no meu videogame Wii, passei a me interessar por futebol. Comecei a compreender a sutileza das estratégias e dos movimentos, os esquemas táticos, e que não dá para simplesmente ir chutando sempre pra frente…
Adentrando nesse mundo, cheguei a um novo patamar no qual a novela dos bastidores do futebol real começou a se tornar mais interessante do que as próprias partidas. Desavenças entre jogadores, trocas de técnico, crises na diretoria, insatisfação de torcidas, isso tem me entretido como uma dessas séries de netflix. Um mundo fictício, um simulacro das relações reais de poder que não nos deixa deprimidos, resguardando uma distância saudável para com a política real, permitindo a fruição da contemplação e da catarse.
O estranho é que desde então tenho acompanhado jogos e bastidores, mas sem torcer para nenhum time.
Hoje de manhã, enquanto pedalava para uma das escolas em que leciono, fui desenrolando comigo mesmo o seguinte questionamento: Apesar de não ter time, é fato que me identifico com alguns clubes brasileiros. Tenho nutrido uma certa afeição pelo Corinthians da era Tite, pela sua inteligência técnica e capacidade afetiva para conduzir pessoas. Algumas vezes torci pelo flamengo, mas foi pela onda, para fazer coro com o pessoal do bar. Nesse time o que mais me chama a atenção é a peculiaridade da torcida que, mesmo em meio a uma crise, ao primeiro movimento positivo já se vê como campeã mundial. Tem também o Santos, simpático pelos nomes que lançou e pelo trabalho de base. E ainda o Vasco, curioso pela figura de seu cômico presidente, e querido por conta da minha origem portuguesa.
Fora estes times, apenas um monte de outros que a mim não fedem nem cheiram. O próprio campeão brasileiro desse ano, o Palmeiras, não me cativa.
Fiquei pensando então, qual seria o time com o qual mais me identifico? E espantado, concluí ser o Botafogo.
A identificação poderia ser pela proximidade geográfica, já que sempre vivi no bairro que dá nome ao clube. Também pelas cores sóbrias e pesadas do seu uniforme, que casam muito bem com meu estilo roqueiro sério e denso. Além disso, o time tem como presidente um sujeito preocupado com a causa animal, o que muito me agrada.
Mas a reflexão começou a ficar séria quando lembrei da estrela solitária, símbolo do Botafogo. Além de uma imagem bonita e bem definida visualmente, ela me remete à teoria do “oceano azul”; à proposta de se descobrir caminhos descongestionados para a condução da vida. Seu escudo, de alguma forma, sintetiza todos os argumentos que encadearei a seguir.
Botafogo é um time “de boas”. Seus torcedores, quando provocam os rivais, o fazem muito mais para participar da brincadeira do que por um impulso de enfrentamento próprio. O fazem tal como o monge budista aceita tomar uma dose de bebida em uma festa, apenas para não causar desconforto no anfitrião.
Em vez de combatentes aguerridos com sangue nos olhos levando uma brincadeira a sério demais, na sua torcida vejo companheiros de sofrimento, tal como Schopenhauer nos aconselhava vermos uns aos outros. O percurso desse time tem sido marcado mais pelos baixos do que pelos altos; pelo constante flerte com a derrota e a queda. É verdade que o time tem mantido uma boa imagem e um bom nível de respeito, mas o constante risco vai criando traços de solidariedade muito interessantes na sua torcida.
Solidariedade e saudosismo são duas boas palavras para descrever o Botafogo.
A torcida do Botafogo é extremamente schopenhaueriana. Ela se acostumou a ver o copo meio vazio. As amarguras vividas fazem com que qualquer pequena conquista surpreenda e seja fruída de forma mais intensa. Vide esse ano de 2016, quando a expectativa era não ser rebaixado, e o campeonato terminou com comemoração generalizada pela entrada na Libertadores.
As maiores glórias apregoadas pelo Botafogo não são os campeonatos conquistados, mas antes os atletas memoráveis que o clube trouxe ao mundo. E entre estes, os principais também são jogadores que não se destacaram tanto pelos resultados, mas sim pela sua estética no jogar, pelo seu estilo quase artístico, como nos casos de Garrincha e de Heleno de Freitas. Numa linguagem nietzschiana, o Botafogo se orgulha de ser um solo fértil para o super-homem, sem a megalomania de querer sê-lo, ele mesmo. É uma visão que a princípio soa pequena, mas que me parece muito bonita, principalmente porque me vejo assim também, enquanto professor.

O botafogo é um clube de boas, do oceano azul. Seguindo a cartilha do epicurismo, é um clube que vai trilhando seu caminho de forma simples e ponderada, diferente dos rivais espalhafatosos. Exemplo disso é que estes hoje brigam pelo controle do Maracanã ou de qualquer outro estádio menor, enquanto o Botafogo rega tranquilamente o seu verde gramado do Engenhão.
Depois de desenvolvido todo esse raciocínio, continuo me negando a torcer por um time. Continuo acompanhando o futebol apenas como uma novela cafona. A única coisa que mudou é que agora tenho um personagem favorito, e se torço por algo, é para que ele mantenha a sua coerência interna e continue sendo exatamente o que tem sido até agora.

*A tempo, FIFA 10 para Wii é a melhor versão de jogo de futebol virtual de todos os tempos.

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