Amusia: Uma anomalia que faz o indivíduo não entender nada de música…

AMUSIA – A incapacidade da percepção melódica

A natureza dotou algumas pessoas de um ouvido musical invejável, capaz de repetir com perfeição todas as notas de uma melodia que mal acabaram de escutar, enquanto outras são incapazes de diferenciar um dó de um lá, um baixo de um barítono.

No entanto, há pessoas que são praticamente surdas aos sons musicais: são as portadoras de amusia.

A amusia é a incapacidade de captar os sons musicais, de lembrar-se de uma melodia e pode ser congênita ou adquirida. A primeira é uma condição hereditária que chega a afetar 5% das crianças nascidas em determinadas populações. Já, a forma adquirida surge como conseqüência de traumatismos ou de derrames cerebrais.

Estudos conduzidos durante a década de 1990 demonstraram que muitos portadores de amusia não apresentam qualquer deficiência no campo da linguagem. Essas pessoas possuem audição, inteligência e memória normais, mas não possuem nenhuma percepção melódica. Para eles, uma melodia é bem parecida com qualquer outra, canções já ouvidas muitas vezes são irreconhecíveis sem a letra, e dissonâncias que faria qualquer um se retorcer, não causam nenhuma reação. Os amusicais não conseguem cantar, mas raramente reconhecem isso. A “amusia” é incomum, mas não especialmente rara. A estatística mais aceita é de que ocorra em 4% da população.
Como uma amúsico é incapaz de reconhecer qualquer intervalo musical, toda música lhe soa barulhenta. Ele percebe a música da mesma forma como uma analfabeto se perde diante das letras de um livro.

Técnicas de ressonância magnética funcional tornaram possível demonstrar a existência de diferenças no padrão de ativação das áreas cerebrais entre aqueles dotados de ouvido absoluto e os eternamente desafinados.
O neurocientista Robert Zatorre, da Universidade MCGill, no Canadá, demonstrou que as músicas mais inebriantes, aquelas que mais nos tocam, ativam regiões cerebrais como a amigdala e o córtex órbito-frontal, também ligadas às emoções e às respostas à alimentação e aos estímulos sexuais.

Apesar dessas descobertas, a Neurociência custou a aceitar a música como um fenômeno cognitivo ligado a circuitos neuronais específicos. A partir do ano 2000, no entanto, a associação de neurocientistas especializados em imagem e psicólogos cognitivos provocou uma revolução na área.

Estudos da psicóloga Isabelle Peretz, da Universidade de Montreal, com a colabroração de Zatorre permitiu concluir que o cérebro dos portadores de amusia apresenta menor quantidade da substância branca localizada no giro frontal direito, área logo atrás do lado direito da fronte, do que os indivíduos considerados “normais” do ponto de vista musical.
Essa área frontal direita está envolvida justamente na percepção e na memória musical. Tais evidências deixaram claro que música e linguagem trafegam por diferentes circuitos, de fato, porque os centros que coordenam a linguagem estão situados do lado oposto, à esquerda do cérebro.

Outras pesquisas realizadas pelo mesmo grupo sugerem que a habilidade dos pianistas capazes de memorizar peças longas e complicadas, é resultado da comunicação integrada entre os circuitos de neurônios motores responsáveis pelos movimentos das mãos e os circuitos da memória auditiva.

Mas o que causa a amusia congênita? De acordo com Peretz, a melhor explicação é a de que o cérebro é equipado com um “módulo” especial de processamento melódico, o qual ocasionalmente não se desenvolve completamente. Isso poderia explicar porque a “amusia” afeta somente a percepção musical. Se esta informação for correta, a música, assim como a linguagem, é inata, implantada de forma profunda em nossos cérebros

Peretz e sua equipe estão à procura dos genes que fazem da amusia uma condição genética, na esperança de conseguirem novas idéias relacionadas ao desenvolvimento anormal do cérebro dos amusicais. Outra questão chave é saber se a amusia é uma anormalidade ou um conjunto delas.

Alguns amusicais gostam de ouvir música por apreciarem os ritmos, mas a metade dos amusicais também têm problemas na percepção rítmica, sugerindo que pode haver uma condição neurológica que acaba com a percepção rítmica, assim como faz com a melódica. Outro problema também detectado pelos estudos é a dos “ouvidores de ruído” – amusicais que percebem a música como se fosse batidas em panelas.
Apenas alguns amusicais ouvem somente barulhos, para a maioria, a música é somente algo confuso diz Peretz.

Se a amusia é uma anomalia ou um conjunto delas, a esperança é que seu estudo possa beneficiar àqueles desafortunados excluídos do profundo prazer da música.
A intervenção no problema pode permitir lidar com a plasticidade normal do cérebro e reparar alguns dos danos. Ainda não há cura ou tratamento para os portadores de amusia.

Cognição é resultado da percepção de algum fenômeno. A origem do termo cognição é “cognoscere” termo em latim que significa conhecer (pela origem).
Percepção é o processo que permite adquirir, interpretar, selecionar e organizar informações sensoriais.
Percepção musical é a capacidade de perceber as ondas sonoras como parte de uma linguagem musical. Envolve a identificação dos atributos físicos do som, como volume, timbre e afinação (percepção sonora), mas também elementos musicais como melodia (percepção melódica) e ritmo (percepção ritmica).

A música está envolvida em grande número de funções mentais. Entre elas, memória, atenção, percepção, performance motora e emoção.
A percepção musical é, por vezes, usada como sinônimo de percepção sonora, desconsiderando assim a melodia, o ritmo e elementos de linguagem musical. Altos níveis de percepção musical são sinais de apurada capacidade de análise sonora, mas não garantem a musicalidade de alguém, visto que não tem relação direta com capacidades de produção sonora.

Cognição musical é estudo dos processos mentais subjacentes que ocorrem quando alguém se relaciona com a música, produzindo-a ou apenas ouvindo. A música e a linguagem parecem transitar por diferentes circuitos cerebrais. Essa é a conclusão de vários estudos conduzidos com o objetivo de esclarecer como o cérebro humano processa as informações necessárias para criar e responder às seqüências de sons.

“A música é capaz de reproduzir, em sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria” (Ludwig van Beethoven)

Referências
Science vol 315, 759 (2007)
New Scientist, vol.197, 2644 (2008)

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